Dr. Valentim Augusto da Silva

Foi advogado famoso, diplomata distinto e escritor muito apreciado. A biografia deste ilustre Mangualdense é rica em acontecimentos nobres. Para relatar, pormenorizadamente, aquilo que dela conheço, seriam precisas muitas páginas. Vou, pois, fazê-lo de maneira sucinta.

Nasceu na cidade do Porto. Ainda criancinha, seu pai, que pouco antes havia enviuvado, vem a Mangualde e entrega seu filho aos cuidados de seus tios. Nessa altura, já não viviam na casa brasonada que foi do seu ascendente Custódio José de Carvalho e Sousa Borges Pintos Medeiros de Gouveia e Frias, morador em Mangualde. Fidalgo de Cota d'Armas, o qual recebeu Carta de Brasão, em 6 de Abril de 1753, dada por El-Rei D. José I.

Verifica-se, assim, que nesta data já a família do Dr. Valentim aqui residia. A sua casa ficava, mais ou menos, no local onde, hoje, está instalada a Tinturaria Americana.

Terminada a sua formatura em Direito, aqui abriu banca de advogado. Cedo começou a ser conhecido na nossa comarca e vizinhas o seu talento. Também em Lisboa, de parceria com outro célebre advogado, Dr. Joaquim Adriano Velloso d'Abranches, exerceu as mesmas funções.

O Dr. Valentim era um republicano convicto e da boa índole. Proclamada a República, é logo nomeado Administrador do nosso concelho. É sabido que nesse tempo de grande agitação política, houve perseguições, sobretudo a clérigos; mas, no seu concelho, o Dr. Valentim não as consentiu, castigando quem as cometia. Em 1919, completamente desiludido, pois o país, por culpa de alguns políticos, estava num caos, abandona a política e vai concorrer à carreira diplomática. Foi o primeiro classificado. Serviu Portugal em quase todas as capitais europeias, com excepcional competência. Mas o auge da sua carreira diplomática, atingiu-o no Brasil, como Encarregado de Negócios. Era o Primeiro Secretário da Embaixada e como o embaixador se aposentou, foi incumbido de gerir a embaixada. Naquele país promoveu o primeiro congresso das associações portuguesas. Aquando da sua partida para Portugal, a Federação das Associações Portuguesas ofereceu-lhe um banquete de despedida. Nele tomaram parte diversas personagens, portuguesas e brasileiras. Nos discursos que nessa ocasião foram proferidos, todos os oradores destacaram as admiráveis qualidades do homenageado, bem como os relevantes serviços diplomáticos, que tanto dignificaram Portugal e a Colónia portuguesa. Pelo óptimo desempenho das suas altas funções, foi várias vezes louvado e condecorado pelos Governos português, italiano e francês. Regressado ao nosso país, foi nomeado Ministro Plenipotenciário. Nesta categoria, devido ao seu estado de saúde, pediu a aposentação, pouco tempo depois.

No sossego do seu lar e auxiliado pela a sua mui dedicada filha, D. Maria Carolina , publicou a obra que o notabilizou como investigador e historiador, a Monografia do Concelho de Mangualde – Antigo Concelho de Azurara da Beira. Deixou espalhados por vários jornais e revistas, apreciados trabalhos. Os mais recentes referem-se à naturalidade de Gil Vicente que demonstrou ser de Guimarães de Tavares, do nosso concelho, e à possibilidade do descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral, ter nascido na Casa de seus antepassados, na Quinta de S. Cosmadinho, que, hoje, faz parte da nossa cidade (Bairro de S. João). Gostava de escrever peças teatrais, para fins humanitários, entre elas, o drama “Preconceito de Nobres” e o poema “Balada de Neve”, recitado no Teatro de Mangualde, em 25 de Dezembro de 1919, pelo então notário Dr. José Álvaro de Meneses, a favor da instituição beneficente local, denominada “Sopa dos Pobres”.

Havia quem o considerasse indiferente às coisas espirituais, talvez porque não tomava parte em actos de culto. Mas através de alguns dos seus escritos e dos seus actos, provou bem o contrário, ou seja que era um verdadeiro crente em Deus. Também foi Provedor da Santa Casa da Misericórdia.

Por volta de 1945, em virtude do seu empenho, a Igreja Matriz de Mangualde foi reconhecida Monumento Nacional. Mas as autoridades eclesiásticas de então a isso opuseram, receando perder a autonomia sobre o templo.

 

In Oliveira, Valentim - Mangualdenses ilustres, 1996